67º Encontro da ABMI - Curitiba/PR

Benchmarking

A ABMI promove a cada 4 meses um Encontro de Benchmarking entre as imobiliárias associadas. O objetivo é incentivar a troca de experiências e de informações entre elas.

Diretoria da ABMI

Setor imobiliário aposta fichas no 2º semestre

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Mesmo em meio à forte tempestade na economia, o empresário Joaquim Ribeiro, 59 anos, proprietário da imobiliária Redentora, em Rio Preto, mantém o otimismo. Não que tenha passado totalmente incólume aos raios e trovoadas que chacoalham o PIB do País. Neste mês, a Brasil Brokers, holding que administrava a carteira de venda de imóveis de sua imobiliária, abandonou o negócio para se concentrar nas grandes capitais brasileiras. Mas sua nau, a maior do setor na cidade, permanece firme e forte: são 4 mil imóveis locados e 11 mil clientes na carteira de loteamentos - só neste ano devem ser inaugurados três deles.
 
O jovem contabilista que no longínquo ano de 1977 estreou no setor vendendo a casa de um caminhoneiro em Rio Preto hoje preside a Federação Nacional de Corretores de Imóveis (Fenaci), com mais de 300 mil profissionais no País. Dá palestras pelo mundo e atualmente prepara seu terceiro livro. Com todo esse know-how, Ribeiro garante: ainda há muito espaço para crescimento do mercado imobiliário no Brasil. “Toda vez que há um pico de baixa, começa a curva ascendente. É a lei do mercado.” Leia a seguir a íntegra da entrevista.
 
Diário da Região - Há uma forte tempestade conjunta na política e na economia do País. Como o mercado imobiliário tem reagido a isso?
 
Joaquim Ribeiro - Estamos vivendo um momento difícil, principalmente na área política, ética, e isso atrapalha a economia. Mas o histórico do mercado imobiliário é assim: 2008, 2009 e no ano passado houve uma queda.
 
Diário - Quanto foi essa queda em Rio Preto?
 
Ribeiro - Aqui não foi muito, 8%. Em São Paulo foi 35%. Em Rio Preto não tivemos problemas como em Ribeirão Preto, que teve um boom de lançamento de prédios. Aqui, não. Foi sempre sustentável. Tanto que aqui nunca houve muito estoque. Sempre foram vendidos 88% dos lançamentos (imobiliários). Nosso estoque gira em torno de 12%, o que é pouco.
 
Diário - Isso traz um menor risco para o setor.
 
Ribeiro - Sem dúvida. A exceção é o Minha Casa Minha Vida, com mais oferta do que procura. Hoje, 400 imóveis do programa estão sem demanda na cidade.
 
Diário - Por que imóveis do Minha Casa têm mais encalhe?
 
Ribeiro - Não é isso. A empresa vai lançando e vendendo. Sobra 50 aqui, 50 ali. Mas acaba vendendo, porque está pronto.
 
Diário - E locação? A gente vê muitos imóveis para alugar em Rio Preto, principalmente na área central.
 
Ribeiro - As dificuldades da economia e os custos da locação provocaram o fechamento de empresas. Por isso se vê muitas placas de “aluga-se”.
 
Diário - A crise impacta mais na locação ou na venda de imóveis?
 
Ribeiro - Na venda. A locação residencial, por exemplo, não tem como o cara não morar em algum lugar. O déficit habitacional de Rio Preto atualmente é de 6 mil imóveis. No Brasil, 6 milhões. Então o que acontece? Em janeiro, fevereiro e março deste ano, a locação está ótima, por conta do início das aulas nas faculdades e transferência de funcionários pelas empresas.
 
Na venda, até o dia 18 de março, tínhamos vendido mais do que janeiro e fevereiro juntos. Isso mostra alguma reação do mercado, apesar da crise econômica. As pessoas que tinham dinheiro ainda têm dinheiro. Só o financiamento caiu um pouco, as pessoas têm medo de perder o emprego. Se bem que houve uma retomada.
 
Diário - Por que o acordo entre a imobiliária Redentora e a Brasil Brokers foi desfeito?
 
Ribeiro - Em 2008, repassei o setor de venda de imóveis para a Brasil Brokers, peguei parte em dinheiro, parte em ações da empresa na Bolsa de Valores, junto com outras 23 imobiliárias. Depois de oito anos, neste mês de março o contrato venceu, o pessoal da Brasil me procurou propondo que eu recomprasse a companhia, eu recomprei. O mercado caiu e a Brasil Brokers quer centralizar seus negócios em grandes capitais. Agora está tudo com o grupo Redentora de novo. Eu continuo com ações na Brasil, mas não tenho mais ingerência em nada. Vendi na alta e comprei na baixa. Foi um bom negócio.
 
Diário - Para quem tem dinheiro disponível para pagar um imóvel à vista, agora é a hora de comprar um imóvel, devido à queda nos preços?
 
Ribeiro - Sem dúvida. Como estamos em uma situação difícil, todos os vendedores estão mais flexíveis. Entra permuta, por exemplo. O cara tem uma casa de R$ 500 mil e quer uma de R$ 1 milhão, dá sua casa e paga o resto em dinheiro ou financia. O vendedor está mais flexível. Antes, com dinheiro jorrando, endurecia o jogo. Hoje ouve mais o interessado, dá desconto, dá prazo maior.
 
A grande vantagem de Rio Preto é que existem cerca de 2 milhões de habitantes no entorno. O cara tem um dinheiro e investe em um apartamento aqui. Porque o filho vem estudar aqui, ele vem passear no fim de semana, ir ao cinema, ao teatro, ao shopping. Hoje 60% dos imóveis vendidos em Rio Preto são para clientes da região. Enquanto isso, o rio-pretense quer comprar um imóvel na praia ou em São Paulo. O de São Paulo, em Paris, Miami. E assim vai (risos).
 
Diário - Que leitura você faz do mercado imobiliário atualmente? Quais são suas perspectivas?
 
Ribeiro - Desde 1900 temos crises de 20 em 20 anos. Mas, no setor imobiliário, vamos precisar de 1,5 milhão de imóveis até 2024. A faixa etária de 20 a 35 anos, mais volumosa, quer casa. Então compra imóvel de um quarto, depois tem filho compra de dois. Cada imóvel vendido gera mais quatro transações imobiliárias, em média. Por isso a construção civil aquece tanto a economia.
 
O Brasil só para de crescer em 2060. Hoje, somos 61,4 milhões de família. Até 2024, serão 84,8 milhões, segundo a PNAD. Então serão 22 milhões de residências até 2024.
 
Mas é claro que houve uma acomodação do mercado. Em 2015, o preço médio dos imóveis no Brasil caiu 8,5%, na média. Depois de um período de valorização excessiva, ocorre uma acomodação do mercado. Não se pode confundir flutuação negativa de preços, que são normais, com desvalorização do imóvel.
 
Ainda há muito espaço para crescer. Hoje o crédito imobiliário corresponde a 8% do PIB no Brasil, enquanto nos Estados Unidos chega a 70%. Ainda se financia muito pouco por aqui.
 
Diário - Passada essa turbulência política atual, a tendência é melhorar?
 
Ribeiro - Eu acho que sim, principalmente no segundo semestre. O imóvel é um bem de raiz, o ladrão não vai levar. E aqui não tem terremoto, vulcão, maremoto. Por isso a tendência é melhorar. A Caixa passou a financiar até 70% do imóvel recentemente - antes eram 50%. Dos 68 milhões de imóveis no Brasil, 64% são imóveis próprios, 18% são alugados e 8% cedidos. A vocação do brasileiro é a casa própria. Todo mundo quer sua casa para morar ou para renda complementar. Imóvel ainda tem valor baixo no mercado mundial e apresenta valorização constante.
A partir do momento em que houver uma definição política no País, o investidor externo vai aproveitar o real barato para comprar imóvel a preço de banana no Brasil. Fui dar uma palestra em San Diego (EUA) em novembro, e no congresso o economista-chefe do mercado imobiliário norte-americano Lawrence Lee, recomendou investir capital em imóveis no Brasil. Porque toda vez que há um pico de baixa, começa a curva ascendente. É a lei do mercado. Sou otimista.
 
Diário - Você é a favor do impeachment da presidente Dilma?
 
Ribeiro - Sou. Estamos vivendo um problema político que não é culpa exclusiva do PT. Não salva nenhum! O modelo nosso está errado. Os políticos deveriam se reunir e propor mudanças. Mas cada um só vê o seu interesse. Essa briga partidária parou o Brasil. Ninguém aprova nada no Congresso. Sou a favor do impeachment para o País voltar a andar. Precisa resolver isso logo.
 
O grande problema no Brasil hoje é a insegurança. O empresariado que não investe porque tem medo de levar prejuízo, o empregado que não gasta porque tem medo de perder o emprego.
 
Diário - Você já viu uma crise tão intensa como essa?
 
Ribeiro - Não. Essa é a pior. Estamos andando dez anos para trás. E não há liderança política para reverter esse processo.