A Imobiliária Taperinha, que há 47 anos nasceu em Santa Maria, cidade encravada bem no coração geográfico do Rio Grande do Sul, sempre teve pegada inovadora, segundo Raquel Castegnaro Trevisan, diretora de marketing e vendas da empresa. Mas o divisor de águas da imobiliária – recorda ela – foi a entrada vitoriosa na Era Digital, iniciada em 2014 e consolidada a partir de 2017, quando, entre outras façanhas, a Taperinha conquistou nada menos que o Top de Marketing, da ADVB-RS, na categoria Comunicação, pelos vídeos do “E agora, Raquel? – o tira-dúvidas do mercado imobiliário”.

“Sim, eu sou uma youtuber”, brinca Raquel, lembrando que quando a empresa deu seus primeiros e passos rumo à digitalização, por uma necessidade surgida em 2014, jamais imaginava as proporções e a repercussão positiva que as ações nesse campo trariam para a empresa, que ficou marcada pelo pioneirismo na produção de conteúdo sobre o mercado imobiliário.

E o vestibular acabou. O que fazer?

Naquele ano, a Universidade Federal de Santa Maria, cidade com cerca de 300 mil habitantes, conhecida por ser um forte polo estudantil e universitário, anunciou que não mais haveria vestibular, passando o processo seletivo a ser feito via Enem.

A notícia teve forte impacto na economia e, em especial no mercado imobiliário local, relembra Raquel, destacando que a cidade vivia ainda os desdobramentos do incêndio da boate Kiss, tragédia que, na noite de 27 de janeiro de 2013, ceifou as vidas de 242 pessoas e feriu outras 680, em sua imensa maioria jovens e adolescentes.

“Os quatro dias de vestibular da Universidade Federal de Santa Maria traziam para a cidade cerca de 30 mil pessoas. Restaurantes, hotéis e, claro, também as imobiliárias, todo mundo se preparava para receber aquele público”, conta Raquel.

“Nesses quatro dias a gente fazia uma série de ações, pois, como as provas eram normalmente de manhã, à tarde os pais e os alunos podiam ir até as imobiliárias, para conhecer imóveis. Com panfletagem nos locais de provas, propaganda em restaurantes e hotéis, procurávamos apresentar a Taperinha, para quando o vestibulando, após ser aprovado nas provas, voltasse para a matrícula sabendo em qual imobiliária iria alugar ou comprar o seu imóvel”.

“Com o fim do vestibular, decretado da noite para o dia”, continua Raquel, “percebemos que não haveria outra forma de falar com esse público senão pelo digital. As nossas primeiras ações digitais foram falando bem de Santa Maria, porque ainda estávamos com os tristes resquícios da Kiss, das mortes de adolescentes causas pelo incêndio no ano anterior.”

Um canal de vídeo, pra começar

Na metade de 2014, num dos encontros da ABMI, Raquel conversou com um associado da entidade que estava gravando vídeo dos imóveis com que trabalhava. “Percebemos que a gente podia fazer isso também com nossos imóveis, e, no finalzinho de 2015, início de 2016, a gente abriu o canal de vídeo da Taperinha”.

A partir daí, segundo Raquel, a discussão com a equipe de marketing passou a ser em torno do conteúdo. “Na época, a moda eram os e-books, que no meu entendimento não condizia com o que precisávamos”.

Depois de um curso, em março de 2016, em Porto Alegre, com Martha Gabriel, considerada um dos ícones do pensamento digital, especialista em tendências e inovação na América Latina, Raquel teve a ideia de produzir conteúdos sobre o mercado imobiliário.

“Num intervalo de aula do curso, uma colega, gerente de marketing de uma rede de postos de gasolina, me fez uma pergunta bastante óbvia sobre locação. Naquele momento eu pensei ‘como pode uma mulher tão inteligente fazer uma pergunta dessas’.  Mas, ao mesmo tempo, me dei conta de que o que é óbvio para mim, que trabalho no mercado imobiliário, poderia não ser óbvio para ela, que atuava em outra área. E aí, como no curso se falava da tendência em se fazer vídeos, as ideias se completaram. De volta a Santa Maria, decidimos produzir vídeos que tirassem dúvidas das pessoas sobre mercado imobiliário”, explica.

No início, de acordo com Raquel, imaginou-se contratar um ator ou atriz para os vídeos, mas a equipe a convenceu de que ela seria a pessoa indicada para conduzir as apresentações, pois falaria com conhecimento de causa, além de ter facilidade diante das câmeras.

“O foco inicial foi na persona estudante, justamente por conta do processo seletivo via Enem, que poderia abranger gente dos mais diferentes recantos do país. Junto com minha filha, à época com 13 anos, passei a observar os youtubers da época, geralmente bem jovens e voltados mais ao entretenimento. No que se refere ao mercado imobiliário, as poucas iniciativas na área eram em geral advogados engravatados falando sobre locação.”

De Santa Maria para o mundo

Dessas observações, a partir da análise do que era comum entre os youtubers, nasceu o “E agora, Raquel?”, em junho de 2016.

“Naquele ano foi uma novidade na cidade, pois criamos o programa com a pretensão de consumo interno, podemos dizer, com o propósito de agradar nossos clientes. Mas, no início de 2017, no Conecta Imobi, o maior evento do marketing imobiliário da América Latina, nosso canal e nosso programa foram citados elogiosamente em duas palestras. Primeiro pelo especialista em comunicação multiplataformas, Rafael Landa, que entre outras atividades é professor de marketing em Lisboa, Portugal. Depois numa apresentação do próprio YouTube, mostrando nosso canal como algo inovador. Para completar, a Taperinha ganhou, com o ‘E agora, Raquel?’, o Top de Marketing de 2017 da ADVB-RS, que existe em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sendo considerado o ‘Oscar do Marketing’.”

Só então, segundo Raquel, caiu a ficha sobre o que a Taperinha havia feito em termos de inovação. “A partir começamos a dar palestras no país inteiro, contando o nosso case. Fomos imitados, algumas vezes, escancaradamente, e em outras servimos de inspiração. Mas tanto eu como a Taperinha viramos referência em conteúdo sobre mercado imobiliário. Aquele programa que nasceu para atender os nossos clientes estudantes, quatro anos depois, tem um público mais velho, formado não só por pessoas interessadas em saber detalhes sobre o mercado imobiliário, quanto até mesmo profissionais que atuam na área. O ‘E agora, Raquel?’ foi a cereja do bolo para a grande virada de chave da Taperinha no digital, processo que iniciamos em 2014”, comenta Raquel, entusiasmada.

Um salto magnifico na história de uma empresa que nasceu que nasceu em agosto de 1973, na sobreloja do Edifício Taperinha.

 “O nome que as pessoas estranham um pouco vem daí. O edifício é um marco da arquitetura local. E a Taperinha começou na sobreloja dele, com três colegas da faculdade de Direito, entre eles o meu pai. Eles montaram um escritório de advocacia juntos, e como era comum na época os clientes começaram a trazer imóveis para eles. Quando deram conta, já tinham uma carteira e decidiram abrir oficialmente uma imobiliária”, rememora Raquel, que é formada em Administração de Empresas.

Na década de 1980, a empresa mudou-se para a Rua Venâncio Aires, no centro de Santa Maria, onde tem uma filial na mesma quadra. Hoje a imobiliária tem 30 funcionários entre celetistas e corretores de imóveis, formado o que Raquel denomina como “família Taperinha”.

Pegada inovadora desde o DNA

Desde o seu início, enfatiza Raquel, a Taperinha sempre teve ‘uma pegada inovadora”.

“Fomos pioneiros em diferentes ações, e a Taperinha passou a ser reconhecida na cidade por esse espírito inovador e de modernidade. Ações às vezes muito simples. Fomos, por exemplo, uma das primeiras ter site e a fazer cobranças por boleto bancário. Fomos também a primeira a trabalhar aos sábados e a não fechar ao meio-dia e abrir às duas da tarde, como era comum no dia a dia das empresas interioranas. Por essas e outras razões, a Taperinha sempre foi reconhecida como uma empresa protagonista. Aliás, o protagonismo de mercado consta de nossa visão no planejamento estratégico, o que também não é usual em pequenas e médias empresas imobiliárias.”

A adesão à ABMI, no entender de Raquel, teve um papel fundamental tanto em sua vida quanto na trajetória da Taperinha.

“Estamos na ABMI desde 2014 e evoluímos muito como empresa nesse período. Na ABMI aprendemos mais sobre o nosso mercado, trocamos experiências de forma aberta com pessoas de todo Brasil e há sempre muita entrega entre os associados. Ali há aprendizado e parceria real”, afirma, destacando o fato de o processo de digitalização da empresa ter se ganhado força justamente no ano em que a Taperinha se associou à entidade.

“Como já dissemos, a gravação de vídeos sobre os nossos imóveis, pontapé inicial para o nosso canal no YouTube e o ‘E agora, Raquel?’, nasceu a partir das informações trocadas com um colega de Campinas, São Paulo, durante um encontro da ABMI realizado em 2014”, frisa Raquel, referindo-se a Mauro Vanti Macedo, fundador da Homehunters, empresa que atua no mercado imobiliário daquela cidade e é também ligada à entidade.

Sobre a ABMI, Raquel faz questão de mencionar também a realização, de 21 de abril a 3 de maio deste ano, do primeiro salão de imóveis digital do país, o Digimobi, do qual ela participou ativamente como uma das pessoas responsáveis por sua preparação.

“A ABMI conseguiu unir e maneira geral os esforços dos associados num momento em que estava todo mundo ainda meio atordoado com a pandemia. Foi uma demonstração de força associativa, onde tivemos praticamente unanimidade de ações, no sentido de tirar da inércia um segmento que, como todos os demais, estava fortemente abalado pela situação trazida pelo coronavírus. Em poucos dias, colocamos no ar um evento, que deverá, seguramente, ter outras edições.”

Digital não elimina o humano

Para Raquel, a digitalização, que em muitas empresas foi agilizada a partir da pandemia, é um caminho sem volta. Por isso, ela deixa um recado para quem ainda não entrou para a chamada Era Digital.

“O cliente hoje está cada vez mais digitalizado, e a empresa se ainda tinha alguma dúvida nesse sentido, com certeza deve ter mudado de ideia a partir da pandemia. Assim, em primeiro lugar, é necessário aceitar que a realidade é essa. A grande dificuldade é a mudança de cultura no sentido de realmente pensar de maneira digital e não querer carregar o offline para o online, que são universos diferentes, embora complementares”, aconselha Raquel, lembrando que a digitalização nunca vai substituir o ser humano. “Precisamos mais do que nunca do ser humano, do profissional que faz aquilo que a máquina não faz. Tudo o que for repetitivo, sem criatividade, sem estratégia e sem um pensar crítico, a máquina pode fazer. No entanto, conforme costuma dizer Martha Gabriel, uma das maiores especialistas no tema, há três coisas que o robô não substitui: a emoção, a empatia e a ética. E essas características são próprias do ser humano, que continuará imprescindível.”

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