Ministro da Fazenda de 1988 a 1990, o economista Maílson da Nobrega é presença garantida no 89º Encontro da ABMI, que acontece de 13 a 15 de março, em Recife (PE), tendo como associada anfitriã o Hub Nogueira Corretores de Imóveis, empresa que ocupa posição de liderança no mercado regional.

Com seis livros publicados, sócio da Tendências consultoria, membro do conselho de administração de várias empresas do país, Maílson falará sobre as perspectivas da economia brasileira em 2024.

O evento, que acontece no Hotel Gran Mercure, localizado na praia de Boa Viagem, já tem confirmados também Eduardo Luiz, CEO do AluOK, plataforma de gestão para imobiliárias; Marcelo Maia de Almeida, superintendente de Habitação da Caixa Econômica Federal; João Paulo Gomes, especialista em Neurociência, com ênfase em comportamento humano e neuromarketing; e Gabriela Didier, especialista em Desenvolvimento Humano.

Na terra do frevo e do maracatu, o ritmo quente do mercado imobiliário será analisado em seus mais relevantes aspectos, com palestras e painéis, realizados nos dias 14 e 15/3/24, quinta e sexta-feira.

O primeiro dia do evento, o dia 13, ficará reservado para visitas dos associados à empresa anfitriã, o Hub Nogueira, que tem como fundador e CEO, Armando Nogueira, não por acaso conhecido no mercado como “trator de vendas”.

Em entrevista ao site da ABMI, ministro destaca que o Brasil construiu, nos últimos 30 anos, um robusto sistema de crédito imobiliário

O evento é exclusivo para dirigentes e colaboradores de empresas associadas, mas aberto à imprensa, bastando para tanto buscar credenciamento com a assessoria de imprensa da ABMI.

Maílson, que atualmente é colunista da revista Veja e mantém um blog na Veja online, concedeu entrevista ao site da ABMI.

Confira os principais pontos da entrevista:

De maneira geral e levando-se em conta as principais tendências mundiais, o que podemos esperar em termos econômicos do Brasil em 2024?

A expectativa para a economia em 2024 é de desaceleração. A Tendências projeta crescimento de 1,6%, quase a metade da estimativa para 2023. Não se poderá contar com o excelente desempenho da agropecuária, que pode ter crescido 16% no ano passado. Isso representará cerca da metade da expansão da economia. Neste ano, sob a influência negativa do El Niño, o setor deve crescer apenas 1%. Tudo isso sem contar os problemas associados ao cenário global, que decorrerão da existência de duas guerras (Ucrânia e Israel) e do risco de uma ação inesperada, que seria a invasão de Taiwan pela China.

Como alguém que já passou pela experiência de ser ministro da Fazenda, como o Sr. analisa a política econômica do atual governo?

A política econômica veio melhor do que se esperava. Seu conteúdo de responsabilidade fiscal é inequívoco. Na verdade, ela manteve de certa forma o teto de gastos, diferindo da norma anterior basicamente porque prevê um crescimento real anual máximo de 2,5% para a despesa e mínimo de 0,6%. Antes era zero. Não resolve, todavia, o problema da expansão crescente da relação entre a dívida pública e o PIB, que já está entre as mais altas entre os países emergentes. Isso dependerá de reformas para devolver a flexibilidade do Orçamento da União. Em 2024, as despesas primárias obrigatórias (Previdência, pessoal, educação, saúde, programas sociais e agora também os investimentos) corresponderão a 98% do total. A média mundial é de algo como 50%. Esse é o nosso calcanhar de Aquiles, que revela uma situação fiscal insustentável. Sem resolver essa rigidez, o país tem um encontro marcado com uma séria crise. O arcabouço fiscal do ministro Fernando Haddad ficará inviável.

Quais são os principais entraves ou desafios para que o Brasil deslanche em termos econômicos?

O Brasil padece de dois problemas básicos que travam o crescimento. O primeiro é a situação fiscal periclitante a que me referi. O segundo é a baixíssima produtividade da economia. A queda da produtividade, como se sabe, é a causa mais importante da perda de dinamismo da economia nos últimos quarenta anos. Hoje, crescemos a um ritmo inferior ao dos países ricos, situação que não se verifica em nenhum de nossos pares relevantes no mundo emergente. O Brasil será condenado à mediocridade se esse desafio não for superado. Ele depende de uma miríade de fatores, tais como melhoria da qualidade da educação, um sistema tributário minimamente racional (felizmente vamos avançar muito nessa área com a reforma tributária recentemente aprovada), um ambiente de negócios atrativo para o investimento privado, melhoria da operação da logística, entre outros. Tudo isso depende de reformas difíceis de enfrentar. Felizmente, temos tempo para esperar por elas, eis que o desempenho da agropecuária e da mineração, incluindo o petróleo, darão fôlego à atividade econômica nos próximos anos.

Como o Sr. analisa a recém-aprovada Reforma Tributária? O que há de positivo nela e em que pontos poderia ser aprimorada?

A reforma ampliará o potencial de crescimento da economia. Estimativas otimistas dizem que esse potencial poderá crescer 20% nos próximos quinze anos. Outras apontam algo entre 10% e 12%. Em qualquer dos casos, será um resultado expressivo. Seus principais avanços serão a tributação no destino, a não-cumulatividade (fim da cobrança em cascata), regras uniformes em todo o território nacional (hoje temos 27 estados e mais de 5 mil municípios ditando normas), a desoneração integral das exportações (hoje só uma parte) e, grande novidade positiva, a desoneração dos investimentos. A meu ver, a reforma é o avanço estrutural mais importante desde o fim do regime militar.

Um dos pontos importantes para o mercado imobiliário são os juros. Como o Sr. vê o comportamento do Banco Central em relação à Selic?

A política monetária vive hoje um ciclo de baixa da taxa Selic, que deve ser concluído no primeiro semestre de 2025. O Banco Central resistiu às pressões em favor de uma queda rápida, mais intensa e irresponsável da Selic, incluindo um grosseiro tratamento em relação ao presidente do Banco Central. A resistência permitiu que a flexibilização se iniciasse apenas quando as condições assim o permitiam. A Tendências estima Selic de 9,5% no fim deste ano e de 8,5% em 2025.

Países desenvolvidos apresentam um elevado percentual do crédito imobiliário em relação ao PIB. Como o Sr. analisa o mercado imobiliário do Brasil em relação a esse aspecto e em termos gerais?

O Brasil construiu, nas últimas três décadas, um robusto sistema de crédito imobiliário, que tem permitido a concessão de empréstimos para compra da casa própria com prazos de 30 anos ou mais. No início dos anos 1990, o prazo máximo era de apenas 12 anos. Dois fatores explicam, a meu ver, esse desempenho espetacular. Primeiro, a vitória contra a inflação, consequência do Plano Real, pois o crédito imobiliário não viceja em ambiente de inflação sem controle. Segundo, a criação da alienação fiduciária de imóveis, que resolveu o problema do prazo de recuperação de crédito hipotecário, que pode levar dez anos ou mais no Brasil. Felizmente, o STF negou, há poucos meses, provimento a recurso que defendia a intervenção do Judiciário na retomada de imóveis por inadimplência. Seria a volta das incertezas típicas do uso da hipoteca, o que poderia acarretar o colapso do crédito imobiliário.

Apesar de alguns avanços ainda temos um déficit habitacional muito elevado. O que fazer para reduzir os indicadores atuais?

O déficit habitacional dificilmente será resolvido ou mesmo muito atenuado nos próximos anos. Isso dependerá da aceleração da taxa de crescimento da economia, da renda e do emprego, que são os motores que impulsionam a demanda por crédito imobiliário e para a realização do sonho da casa própria para a maioria da sociedade. Dependerá também da solução para o grave problema fiscal, o que liberaria espaço orçamentário para a expansão do financiamento habitacional em favor das classes menos favorecidas, nos moldes do programa Minha Casa Minha Vida.

Armando “trator” Nogueira, fundador e CEO do Hub Nogueira, representante da ABMI em Recife e empresa anfitriã do 89º Encontro

Comments (2)

  1. Virgínia Duailibe
    30 de janeiro de 2024

    A entrevista evidencia mais ainda o profundo conhecimento do Ministro Maílson da Nóbrega acerca da economia brasileira em todas as suas abrangências. Será, de fato, uma experiência ímpar participar do evento da ABMI, que contará com sua palestra, em Recife, em março próximo.

  2. Marcelo Faria Brognoli
    30 de janeiro de 2024

    Teremos mais uma aula sobre a economia brasileira. Mais um golaço dessa gestão. Parabéns.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *