Uma das mais aplaudidas atrações do primeiro dia de conteúdo 102º Encontro da ABMI, aconteceu na tarde de 20/8/26, no B Hotel, em Brasília, e teve como protagonista Paulo Octávio, empresário que há mais de meio século influencia o desenvolvimento urbano de Brasília. Numa conversa com Pedro Fernandes, CEO do Grupo Beiramar, empresa associada anfitriã do Encontro, que agitou a capital federal de 19 a 22/8/26, ele trouxe valiosas reflexões sobre o Brasil e o mundo em 2026.

Paulo Octávio é um dos mais reconhecidos empresários de Brasília, com trajetória marcada pelo empreendedorismo e pela forte atuação no mercado imobiliário. Fundador das Organizações PaulOOctavio em 1975, transformou o grupo em um dos maiores do Distrito Federal, com presença em áreas como incorporação, construção, hotelaria, shopping centers, concessionárias, seguros, comunicação e energia limpa.

Ao longo de mais de cinco décadas, protagonizou a entrega de mais de 800 empreendimentos que ajudaram a moldar a paisagem urbana da Capital. Sob sua gestão, o grupo tornou-se referência em qualidade e inovação, assinando mais de 53 mil carteiras de trabalho e contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento econômico do Distrito Federal.

Na vida pública, Paulo Octávio atuou como deputado federal, senador, vice-governador e secretário de Estado, participando de projetos essenciais para Brasília, como a criação do Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF). Comprometido com responsabilidade social, apoia iniciativas em educação, cultura, esporte e assistência, incluindo alfabetização e inclusão digital de mais de 3 mil operários.

Na conversa com Pedro Fernandes, Paulo Octávio relembrou sua chegada a Brasília aos 12 anos, vindo do interior de Minas, descrevendo a capital ainda empoeirada, sem jardins e muito diferente da cidade arborizada que existe hoje. Contou que começou como corretor de imóveis aos 20 anos, até decidir, aos 25, abrir sua própria empresa — “era eu e uma secretária apenas”. A partir daí, consolidou uma trajetória marcada por cautela e foco exclusivo no Distrito Federal: “Nós não temos um metro quadrado fora do DF”. Segundo ele, expandir para outros estados é arriscado, pois “cada cidade tem suas manias, sua burocracia”, e muitas empresas que tentaram crescer demais “tiveram dificuldades”.

O empresário destacou que o mercado imobiliário mudou profundamente. “O comprador hoje é cada vez mais exigente”, disse, citando clientes que levam advogados para analisar contratos e engenheiros para conferir detalhes da obra. Ele lembrou que prédios antigos nem tinham garagem, enquanto hoje “se você for vender um apartamento sem garagem, esquece”. Para ele, tecnologia, sustentabilidade e segurança se tornaram elementos centrais na decisão de compra.

Ao falar dos desafios da carreira, mencionou que já enfrentou oito planos econômicos e viu 22 presidentes da República passarem pelo país. Mudanças constantes de regras, como alterações no código de obras, dificultam o setor. Mesmo assim, mantém uma rotina intensa: “Como presidente da empresa, eu tenho que trabalhar igual ou mais que todo mundo, mesmo com 76 anos”. Disse que já assinou 50 mil carteiras de trabalho e que sua maior alegria é ver famílias prosperando em imóveis que construiu: “A alegria é fazer a coisa bem feita e ter a recompensa do sorriso da família”.

Sobre investimentos, afirmou acreditar fortemente nos setores de hotelaria e shopping centers. Contou que já construiu seis hotéis e vê potencial no turismo, apesar das dificuldades do transporte no Brasil. Para ele, os shoppings se transformaram em “centros de convivência social”, onde as pessoas buscam segurança, conforto e interação. Relatou que seus shoppings têm ocupação total e que a relação com lojistas é de parceria: “O lojista é meu sócio”.

Ao comentar o cenário nacional, Paulo Octávio demonstrou preocupação com a reforma tributária: “Até agora eu não entendi como vai funcionar o nosso segmento”. Criticou a complexidade do sistema e defendeu um modelo simples, como o Imposto Único. Para ele, o Brasil tem todas as condições para crescer — clima, água, ausência de guerras — mas falta “planejamento e gestão”. Ainda assim, mantém o otimismo: “Se eu tivesse 1 milhão de dólares para investir hoje, eu investiria no Brasil”.

Confira a seguir a íntegra de entrevista exclusiva concedida por Paulo Octávio ao site da ABMI.

Em 2026, o Brasil vive um cenário de transformações econômicas e geopolíticas. A partir da sua experiência empresarial e política, quais reflexões o senhor considera essenciais para compreender o papel do país no mundo neste momento?

Chegamos a 2026 diante de um mundo mais complexo, competitivo e, ao mesmo tempo, cheio de oportunidades. Temos uma das maiores economias do planeta, uma enorme capacidade de produção de alimentos, uma matriz energética com características muito favoráveis e um mercado consumidor expressivo. Precisamos transformar essas vantagens em uma estratégia permanente de desenvolvimento. Minha experiência empresarial e política me ensinou que o Brasil precisa ter previsibilidade, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e capacidade de planejamento. O investidor, brasileiro ou estrangeiro, precisa saber quais são as regras do jogo e ter confiança de que elas serão respeitadas no longo prazo. Também precisamos compreender que o mundo está passando por uma reorganização das cadeias produtivas. Isso abre uma oportunidade extraordinária para o Brasil. Podemos atrair investimentos, ampliar nossa participação no comércio internacional e desenvolver novas indústrias, especialmente nas áreas de energia, tecnologia, infraestrutura e transição energética. O Brasil não pode escolher entre ser uma potência agrícola, energética, industrial ou tecnológica. Precisamos ser competitivos em todas essas frentes. E, para isso, precisamos voltar a pensar o país com uma visão de longo prazo.

O mercado imobiliário brasileiro passou por mudanças profundas nas últimas décadas. Com mais de 50 anos de atuação e mais de 800 empreendimentos entregues, quais tendências o senhor acredita que vão definir o setor em 2026, especialmente em capitais planejadas como Brasília?

Quando comecei, Brasília ainda era uma cidade muito jovem. Hoje temos um consumidor muito mais informado, exigente e conectado. Ele não procura apenas um imóvel; procura qualidade de vida, segurança, mobilidade, conveniência e serviços. Vejo algumas tendências muito claras. A primeira é a integração entre diferentes usos. Os empreendimentos precisam conversar cada vez mais com a cidade, reunindo moradia, comércio, serviços, lazer e espaços de convivência. A segunda é a tecnologia. Inteligência artificial, análise de dados, automação e novas ferramentas de gestão vão transformar desde a concepção dos projetos até a comercialização e o relacionamento com o cliente. A terceira é a sustentabilidade. Não podemos mais pensar em um empreendimento sem considerar eficiência energética, gestão de resíduos, mobilidade e impacto ambiental. E existe uma quarta tendência, que considero fundamental: a busca por localização e qualidade urbana. Em Brasília, uma cidade planejada e com características urbanísticas únicas, precisamos valorizar aquilo que já temos e, ao mesmo tempo, criar novas centralidades capazes de reduzir deslocamentos e aproximar as pessoas de seus locais de trabalho, comércio e serviços.

Brasília é uma cidade que o senhor ajudou a construir física e simbolicamente. Como o senhor enxerga a evolução urbana da Capital nos próximos anos e quais desafios estruturais ainda precisam ser enfrentados para garantir qualidade de vida e desenvolvimento sustentável?

Brasília continuará crescendo e se transformando. A cidade que conheci há mais de seis décadas é muito diferente da Brasília de hoje, e certamente será diferente da Brasília que veremos daqui a 20 ou 30 anos. O grande desafio é fazer esse crescimento de maneira planejada. Precisamos avançar em mobilidade, saneamento, infraestrutura, segurança, habitação e integração entre as diferentes regiões administrativas. Brasília tem um patrimônio urbanístico extraordinário, que precisa ser preservado, mas também precisamos permitir que a cidade evolua. Não podemos continuar imaginando uma cidade em que grande parte da população precise atravessar longas distâncias todos os dias. Precisamos aproximar moradia, trabalho, comércio, educação, saúde e lazer. Também acredito muito na parceria entre o poder público e a iniciativa privada. O Estado tem responsabilidades que são intransferíveis, mas o setor privado pode contribuir muito com investimentos, inovação e capacidade de execução. O futuro de Brasília precisa combinar preservação de sua identidade com modernização. É possível fazer as duas coisas.

Em um ambiente global marcado por inovação tecnológica e transição energética, quais setores da economia brasileira o senhor vê como mais estratégicos para manter competitividade e atrair investimentos internacionais?

O Brasil tem uma combinação de ativos que poucos países possuem. Temos agricultura competitiva, recursos naturais, uma matriz energética com grande participação de fontes renováveis, biodiversidade, mercado consumidor e capacidade de produção industrial. Vejo oportunidades muito importantes em energia limpa, infraestrutura, agronegócio, tecnologia, inteligência artificial, logística e indústria de transformação. A transição energética também pode colocar o Brasil em uma posição privilegiada. Temos potencial em energia solar, eólica, biomassa e outras fontes renováveis. Mas não basta produzir energia. Precisamos agregar valor, desenvolver tecnologia, formar mão de obra e criar uma cadeia industrial ao redor dessas atividades. O investidor internacional procura mercado, mas procura também estabilidade e infraestrutura. Portanto, precisamos combinar nossas vantagens naturais com ambiente de negócios competitivo. Se fizermos isso, o Brasil poderá não apenas receber investimentos estrangeiros, mas se tornar um importante fornecedor de tecnologia, energia, alimentos e soluções para uma economia mundial em transformação.

As Organizações PaulOOctavio atuam em construção, hotelaria, comunicação, energia limpa e outros segmentos. Em 2026, qual desses setores o senhor considera mais decisivo para impulsionar o desenvolvimento econômico do Distrito Federal e do país?

Eu não separaria esses setores. A experiência empresarial nos mostra que eles se complementam. A construção civil tem um papel muito importante porque movimenta uma cadeia enorme de fornecedores e gera empregos. A hotelaria ajuda a desenvolver o turismo de negócios e de eventos. A comunicação é fundamental para aproximar empresas e consumidores. E a energia limpa será cada vez mais importante para a competitividade de toda a economia. Mas acredito que a palavra-chave é integração. Um empreendimento imobiliário precisa pensar em energia, sustentabilidade, comunicação, serviços e experiência do consumidor. Um hotel, além do já citado, precisa estar conectado ao turismo, à economia e à infraestrutura da cidade. E todos esses setores dependem de pessoas qualificadas e de tecnologia. No Distrito Federal, temos uma grande oportunidade de desenvolver uma economia cada vez mais diversificada, aproveitando a condição de Brasília como capital do país, centro político, polo de serviços e destino de eventos.

O setor de construção civil é um dos motores da economia brasileira. Com sua experiência, quais políticas públicas e marcos regulatórios seriam fundamentais para destravar novos investimentos imobiliários e acelerar a produção de moradias e infraestrutura urbana?

O primeiro ponto é segurança jurídica. Um projeto imobiliário envolve investimentos elevados e um horizonte de longo prazo. O empresário precisa ter segurança de que as regras serão claras e estáveis. O segundo é reduzir a burocracia. Não se trata de retirar os controles necessários, mas de tornar os processos mais eficientes. Um empreendimento que demora anos para obter todas as licenças tem seu custo elevado e, no final, quem paga essa conta é a sociedade. Também precisamos de políticas permanentes de crédito habitacional, especialmente para a população de baixa e média renda. O déficit habitacional brasileiro ainda representa uma oportunidade de investimento e, principalmente, uma enorme responsabilidade social. Outro ponto é a infraestrutura. Não adianta aprovar novos empreendimentos sem garantir transporte, saneamento, energia, mobilidade e equipamentos públicos. Precisamos planejar a cidade antes de simplesmente expandi-la. Como JK fez, nos anos 1950. E defendo cada vez mais uma aproximação entre governos e iniciativa privada. O poder público pode estabelecer as diretrizes e prioridades, enquanto o setor privado tem capacidade de mobilizar capital, tecnologia e execução. O resultado precisa ser gerar mais moradia, mais infraestrutura, mais empregos e cidades melhores.

Depois de cinco décadas de atuação empresarial e política, que reflexão pessoal o senhor traz para este momento do Brasil? O que ainda o inspira a continuar contribuindo para o desenvolvimento de Brasília e para o futuro do país?

Talvez a principal lição que eu tenha aprendido seja a importância de pensar no longo prazo. Quando comecei a construir em Brasília, muitos projetos pareciam grandes demais para uma cidade que ainda estava se formando. Hoje, olhando para trás, vejo que algumas das decisões mais importantes foram justamente aquelas tomadas pensando em um futuro que ainda não existia. Isso me ensinou que empreender é acreditar. Acredito no Brasil. Acredito em Brasília. E acredito na capacidade das novas gerações. O que me inspira é justamente a possibilidade de continuar participando da construção desse futuro. Não penso apenas nos prédios que entregamos ou nos negócios que realizamos. Penso nas famílias que moram nesses empreendimentos, nas pessoas que trabalham nas empresas que criamos, nos empregos gerados e na transformação que cada projeto provoca na cidade. Depois de cinco décadas e mais de 53 mil carteiras assinadas, continuo acreditando que o empresário tem uma responsabilidade que vai além do resultado financeiro. Temos que gerar riqueza, mas também temos que gerar oportunidades. Brasília me deu muito. Foi aqui que construí minha vida empresarial e pessoal. Por isso, tenho um compromisso permanente com o desenvolvimento da cidade. E acredito que essa é a melhor maneira de olhar para o futuro: reconhecer o que já foi construído, aprender com a experiência e continuar trabalhando para entregar às próximas gerações um Brasil melhor do que aquele que recebemos.

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