Sob o tema “Do investimento ao crescimento, o eixo da expansão”, o 102º Encontro da Associação Brasileira do Mercado Imobiliário (ABMI) transformou Brasília, nos dias 20 e 21 de agosto de 2026, na capital dos debates estratégicos sobre inovação, financiamento, tecnologia e desenvolvimento regional no setor de imóveis e habitação.

No B Hotel, onde ocorreu a programação de conteúdo, o evento reuniu nomes que influenciavam diretamente os rumos do mercado imobiliário, trazendo análises profundas e experiências que atravessavam diferentes áreas da economia brasileira.

Pedro Fernandes, CEO do Grupo Beiramar, empresa anfitriã do evento, e Jorge Santos, presidente da ABMI, na abertura do 1º dia de conteúdo do evento

Com o Grupo Beiramar como empresa anfitriã, o encontro ofereceu uma agenda exclusiva para dirigentes e colaboradores das associadas, realizada de 19 a 22 de agosto.

No primeiro dia de conteúdo (20/8/26, quinta-feira), muitas atrações marcaram o evento, a começar pela apresentação que abriu a programação, realizada por Paulo Fernandes, cofundador e COO da BRM Asset e sócio e COO da Beiramar Imóveis, que apresentou a palestra “Grupo Beiramar: da intermediação imobiliária ao mercado de capitais”.

Em sua fala ele revisitou a trajetória da empresa e revelou bastidores das decisões que moldaram a empresa ao longo de mais de quatro décadas. Ele lembrou que sua relação com a ABMI começara cedo, aos 15 anos, quando de um evento da ABMI em Brasília – antes do 102º a Beiramar foi anfitriã de dois outros encontros –, destacando que o impulso para participar da Associação veio do irmão, Pedro Fernandes, movido por “um ímpeto incansável de crescimento e busca de conhecimento”.

Paulo Fernandes foi o primeiro palestrante, trazendo a história do Grupo Beiramar, “da intermediação imobiliária ao mercado de capitais”

Paulo reconstruiu a origem da empresa a partir da história do pai – Alberto Fernandes, falecido em agosto de 2020 – descrito como “um empreendedor fenomenal”, nascido no interior do Maranhão, caixeiro viajante e fundador da primeira ótica de Brasília.

Após enfrentar uma crise no setor de embalagens, o pai decidiu “viver de renda”, mas um ano depois já estava novamente comprando, vendendo e alugando imóveis, dando início ao negócio que mais tarde se tornaria a Beiramar.

Ele relembrou o momento em que, ainda criança, foi emancipado e transformado em sócio da empresa: “Eu tinha 8 anos e o Pedro 12. Meu pai disse que a partir daquele dia nós tínhamos responsabilidades de adultos”. A partir de então, metade das férias dos irmãos passou a ser dedicada ao trabalho na companhia.

Ao narrar a evolução da empresa, Paulo destacou a criação de unidades como a Marítima (1995), o braço de gestão comercial (2004) e o segmento de corporation (2010), além da entrada no Minha Casa Minha Vida em 2017. Explicou também o processo de reflexão estratégica iniciado em 2020, após a morte do pai, quando ele e Pedro decidiram redesenhar o modelo de negócios para resolver desafios históricos da relação entre imobiliárias e incorporadoras. “A gente precisava ser o gerador dos empreendimentos que ia vender”, afirmou.

A apresentação detalhou a virada para o mercado financeiro, com a criação de fundos imobiliários, a captação de investidores profissionais e institucionais, e a expansão para operações offshore em Nova York. Paulo ressaltou que o segundo fundo da casa se tornou “o melhor portfólio de desenvolvimento” de um multifamily office suíço posteriormente adquirido pelo BTG.

Ao falar sobre cultura empresarial, Paulo enfatizou que “parceria de longo prazo” é o valor inegociável da Beiramar. Destacou ainda o modelo de partnership, que permite que lideranças se tornem sócias sem aporte financeiro, pagando suas cotas com dividendos futuros.

Encerrando, projetou o futuro: até 2030, a Beiramar quer ser “a principal plataforma de capital dos mercados em que atua”, com presença estratégica no DF, Goiás e Santa Catarina. A plateia aplaudiu quando ele chamou ao palco a mãe, Marimir Colares Fernandes, responsável por estruturar o braço de locações e peça central da sucessão familiar.

O segundo palestrante do primeiro dia foi de Marino Colpo sócio-fundador e CEO da Boa Safra, empresa líder na produção de sementes de soja no país.

A palestra de Marino Colpo – “A história do impossível” – foi uma narrativa de determinação e ruptura, marcada por uma promessa feita ainda na adolescência. Ele conta que cresceu em Formosa (GO), numa infância simples, “subindo em pé de manga, andando na rua e indo pra escola de bicicleta”, enquanto o pai, um homem humilde e disciplinado, o ensinava a valorizar o trabalho e a curiosidade intelectual. Aos 12 anos, era levado ao balcão da empresa da família, onde vendia produtos para pecuaristas e lia diariamente a Gazeta Mercantil, um jornal voltado à economia, que deixou de existir em 2009, com quase 90 anos de existência. O pai o desafiava: “Guri, a melhor coisa para o homem é a interpretação de texto”, dizia, antes de cobrar dele a explicação de uma matéria por página.

Marino Colpo, sócio-fundador e CEO, da Boa Safra, líder na produção de sementes de soja no país: “A história do Impossível”

Foi nesse ambiente que surgiu o sonho que guiaria toda sua trajetória. Durante uma onda de IPOs no Brasil, o pai comentou: “Olha aí, guri, mais um IPO. Aprenda: o grande empresário chega na bolsa de valores.” Marino respondeu sem hesitar: “Então você pode anotar que eu vou ser um grande empresário e vou chegar na bolsa também.” O pai escreveu a promessa num papel e pediu que ele assinasse. “Aquilo virou meu norte de vida”, afirma.

A partir daí, Colpo estruturou sua formação para alcançar o objetivo. Estudou economia e administração, trabalhou na Bolsa de Chicago e aprendeu sobre hedge, risco e a importância do capital para o agronegócio. Ao voltar ao Brasil, decidiu profissionalizar o negócio familiar, enfrentando resistência de produtores que consideravam “loucura” abrir um CNPJ e operar com notas fiscais. A irmã, recém-chegada da França, trouxe a ideia que mudaria o rumo da empresa: sementes de soja armazenadas em câmaras frias, que ganhavam vigor ao sair da dormência. “As sementes do Brasil têm baixíssima qualidade”, ela dizia. O investimento parecia arriscado, mas o produto rapidamente se tornou altamente demandado.

Com o negócio crescendo, Marino iniciou a preparação para o IPO. Implementou o SAP quando a empresa faturava apenas R$ 23 milhões, enfrentando descrença da fornecedora. “Nós vamos ser o melhor cliente da história da SAP”, prometeu. Depois, buscou auditoria da KPMG, mesmo ouvindo que seria “um dos menores clientes” e que deveria procurar alternativas mais simples. A auditoria quase quebrou a empresa, mas elevou o nível de governança.

O passo final foi convencer o mercado financeiro. Muitos bancos rejeitaram o projeto, afirmando que “a bolsa não é lugar para o agro”. Marino insistiu: “Como não? O agro é 25% do PIB.” Após sucessivas negativas, encontrou uma equipe jovem na XP que decidiu apostar na tese. Em plena pandemia, realizou roadshows virtuais, muitas vezes apresentando para telas pretas de investidores que nem ligavam a câmera. Depois de duas tentativas frustradas, o IPO finalmente saiu em 2021, levando a Boa Safra à B3 com o ticker SOJA3.

Ao encerrar a palestra, Marino sintetizou sua trajetória em três princípios: ter um sonho grande e claro, trabalhar duro com organização extrema e, sobretudo, “enfrentar o ‘não’”. “Foram muitos ‘nãos’”, diz. “Mas enfrentar o ‘não’ é muito forte para o empreendedor.”

Ainda na manhã de quinta-feira, 20/8/26, a tecnologia ganhou protagonismo com José Thomaz Pereira, economista formado pela Universidade de Chicago, que em sua apresentação mostrou o que “o que a IA revela sobre cada região do Brasil” em relação ao mercado imobiliário.

A apresentação de José Thomaz, cofundador da Laís, levou ao público da ABMI uma leitura inédita do mercado imobiliário brasileiro baseada em 6 milhões de conversas reais captadas pela IA da empresa desde 2023. “A gente conseguiu começar a escutar o mercado de forma ativa”, afirmou, ao explicar que essas interações, antes dispersas em celulares, CRMs e gravações, agora formam a maior base estruturada de diálogos do setor. Segundo ele, a cada 35 brasileiros, um já conversou com a Laís, o que permite análises com profundidade inédita sobre comportamento, intenção e urgência dos consumidores.

José Thomaz Pereira: números inéditos do mercado imobiliário a partir de 6 milhões de conversas captadas pela IA

Entre os dados revelados, Thomaz destacou o avanço expressivo das menções a financiamento nas conversas: de 19% em março de 2025 para 34% em março de 2026, um salto de nove pontos percentuais. O movimento, segundo ele, reflete tanto o ciclo de juros quanto a expansão do Minha Casa Minha Vida. Na locação, a IA identificou uma mudança estrutural: garantias pagas (como seguro-fiança e fiança onerosa) crescem de forma contínua, enquanto o fiador perde relevância, tendência confirmada posteriormente por dados de ERP – planejamento de recursos empresariais. “O que a gente está vendo na conversa é quase que uma antecipação do que vai acontecer depois no fundo do funil”, explicou.

A análise também mostrou quais critérios realmente eliminam imóveis da busca: aceita pet, garagem e mobiliado aparecem com frequência muito maior nas conversas do que itens como piscina ou proximidade da escola. A IA identificou ainda gatilhos de mudança, como emprego e educação, com picos sazonais em janeiro devido às matrículas universitárias. No funil de qualificação, Thomaz revelou que leads vindos de portais e sites próprios têm taxa de qualificação entre 68% e 70%, enquanto os do Meta ficam entre 45% e 50%. O reengajamento automático da IA aumenta a conversão em 9 pontos percentuais, reforçando a importância da nutrição contínua.

Por fim, o executivo apresentou o índice de geração de leads da Laís, que mostra que 2026 está 15% mais forte que 2025 em volume de interessados, com oscilações sazonais típicas do setor. Ele também detalhou diferenças regionais: o Sul lidera a busca por aluguel (68%), enquanto o Nordeste tem maior proporção de interessados em compra (47%). Além disso, 51% das buscas acontecem fora do horário comercial, reforçando a necessidade de atendimento contínuo. Thomaz encerrou afirmando que a IA inaugura uma nova era: “A quantidade de informação que a imobiliária já tem e vai poder utilizar para tomar decisões melhores vai aumentar brutalmente”.

Na parte da tarde do primeiro dia do 102º Encontro da ABMI, a programação abriu espaço para uma homenagem às duas associadas da ABMI mais longevas em atividade no mercado imobiliário brasileiro: a APSA (Administração Predial e Negócios Imobiliários S/A), do Rio de Janeiro (RJ) a Auxiliadora Predial, de Porto Alegre (RS), que no dia 1º de julho de 2026 completaram 95 anos.

Márcio Schneider e Mário César Soares, recebem placas homenageando as associadas mais longevas da ABMI, com mais de 95 anos de existência: APSA e Auxiliadora Predial

Para receber placas comemorativas, o presidente da ABMI, Jorge Santos, chamou ao palco Márcio Schneider, membro Conselho de Administração da APSA e atual diretor de Planejamento da Associação, e Mário César Soares, diretor-executivo da Auxiliadora Predial. (saiba mais sobre a história das duas empresas no site da ABMI)

A primeira palestra da tarde ficou por conta de Eduardo Aroeira Almeida, engenheiro civil e recém‑empossado presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Com trajetória marcada pelo associativismo, tendo presidido a Ademi‑DF por dois mandatos e liderado o Seconci‑DF, Aroeira apresentou um detalhado panorama da construção civil brasileira, abordando temas como industrialização, crédito, mão de obra e desafios regulatórios.

A palestra do presidente da CBIC revelou um diagnóstico contundente do setor da construção e do mercado imobiliário brasileiro, marcado por juros altos, custos crescentes e desafios estruturais. “A taxa Selic ainda em 14% é extremamente alta”, afirmou, destacando que o juro segue como o maior entrave para o setor, citado por 36,2% dos empresários em pesquisa nacional. Eduardo também revelou que, apesar das dificuldades, a construção civil mantém forte geração de empregos –169 mil novas vagas no primeiro semestre de 2026 –, mas enfrenta uma pressão inédita por mão de obra qualificada, cujo custo cresce “mais que o dobro do INPC”. Ele alertou ainda para o impacto da reforma tributária, cuja regulamentação segue indefinida: “O diabo mora nesses detalhes”, disse, ao explicar que o novo sistema pode aumentar a complexidade e pressionar o capital de giro das empresas.

Eduardo Aroeira Almeida, presidente da CBIC: diagnóstico contundente do segmento de construção e do mercado imobiliário do Brasil

Eduardo também abordou o paradoxo do crédito imobiliário. Mesmo com juros elevados, o setor registrou recorde histórico de R$ 160,3 bilhões financiados no primeiro semestre, impulsionado pela modernização do SFH e pela ampliação dos tetos de financiamento. O FGTS, por sua vez, sustenta o Minha Casa Minha Vida com orçamento recorde, mas já opera no limite: “A arrecadação líquida está em erosão”, alertou, citando o risco dos saques extraordinários comprometerem subsídios e financiamentos futuros. Entre as tendências, destacou a busca crescente por imóveis compactos, o fortalecimento do aluguel e a necessidade urgente de produtividade, via industrialização, tecnologia e desburocratização. Para 2026, a CBIC projeta crescimento moderado de 1,2%, sustentado pela infraestrutura, mas com forte pressão sobre custos, funding e acesso ao crédito.

Pedro Fernandes, CEO do Grupo Beiramar, conduziu conversa extremamente proveitosa com o empreendedor brasiliense Paulo Octávio

A penúltima atração do dia dePaulo Octávio, empresário que há mais de meio século influencia o desenvolvimento urbano de Brasília. Ele fez reflexões sobre o Brasil e o mundo em 2026, num aplaudidíssimo bate-bola com Pedro Fernandes, CEO do Grupo Beiramar, empresa associada anfitriã do Encontro. (veja com foi sua apresentação e entrevista exclusiva com ele no site da ABMI)

Encerrou o dia uma apresentação intitulada “Grand Terroir 31: produção integrada de vinhos e azeites de oliva”. No palco, Luiz Eduardo Batalha, empresário e engenheiro mecânico, reconhecido por transformar a olivicultura brasileira e por liderar projetos de grande impacto no agronegócio e no turismo.  Ele empolgou a plateia contanto como  79 anos, tornou-se conhecido como o “Rei do Azeite” ao consolidar a Azeite Batalha como a maior produtora individual de azeite extravirgem do país, responsável por uma safra recorde de mais de 200 mil litros em 2023, cerca de 40% da produção nacional.

Luiz Eduardo Batalha empolgou a plateia contando como, aos 79 anos, tornou-se o “Rei do Azeite”

Pioneiro na pecuária premium e responsável pela chegada do Burger King ao Brasil, Batalha construiu uma trajetória que atravessa hotelaria, genética bovina e produção de alimentos. Atualmente, lidera o Grand Terroir 31, complexo turístico-imobiliário na Campanha Gaúcha que integra olivais, vinhedos, hotelaria e gastronomia.

102º Encontro da ABMI teve um público tão gigante quanto seu contéudo: 250 pessoas

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