O empreendedor Ricardo Souza participa do 100º Encontro da ABMI como uma das vozes mais influentes da nova era da inteligência artificial aplicada aos negócios e sua presença promete ser um dos pontos altos da programação.
Estrategista e referência nacional em transformação empresarial com IA, Souza defende que o mercado imobiliário está diante de uma ruptura inevitável. “Máquinas automatizam o braçal; humanos humanizam a decisão”, afirma, sintetizando a filosofia que orienta seu trabalho e que deve nortear sua palestra em Aracaju, durante evento que acontece de 18 a 21 de março de 2026 na capital sergipana, tendo como anfitriã a associada Cohab Premium.
Com passagem pela Movile, grupo investidor de empresas como iFood e Sympla, e hoje à frente da BÜ, ecossistema dedicado a ajudar organizações a “IA‑izarem” suas operações, Souza tem se destacado por uma abordagem prática, direta e orientada a resultados.
Seu objetivo é claro: “tirar a IA do discurso e colocar na operação”. Para ele, a tecnologia não é mais um diferencial competitivo, mas um divisor entre empresas que prosperam e empresas que ficarão para trás. “Tudo aquilo que é impossível para o humano fazer em segundos, a IA faz. E quando isso entra na rotina, a empresa muda de patamar”, reforça.
É com essa visão contundente e exemplos reais de transformação, que ele desembarca no 100º Encontro da ABMI, cuja parte de conteúdo acontece nos dias 19 e 20 de março no Vidam Hotel, em Aracaju (SE).
O evento reunirá especialistas e lideranças do setor imobiliário de todo o país e terá como anfitriã a Cohab Premium, associada na capital sergipana. Na ocasião, seu CEO, Jorge Santos, assumirá a presidência da entidade para o biênio 2026–2027.
A expectativa em torno da participação de Souza é alta. Ele tem defendido que o maior desafio das empresas não é tecnológico, mas cultural. “O erro não está em adotar IA, mas em adotá-la de forma tímida, superficial ou desorganizada. A IA não é só para fazer mais rápido, é para pensar junto, estruturar estratégia e executar com escala”, afirma.
Sua palestra, prevista para se iniciar às 14h40 na quinta-feira (19/3), deve provocar, desafiar e orientar líderes que buscam sair da experimentação e entrar na automação inteligente, onde processos se tornam instantâneos, decisões ganhem precisão e o mercado imobiliário se reinventa diante de um novo paradigma.
Confira a íntegra da entrevista de Ricardo Souza ao site da ABMI.

Você defende que “máquinas automatizam o braçal e humanos humanizam a decisão”. Na prática, quais critérios uma empresa deve usar para decidir o que automatizar e o que manter humano em seus processos atuais?
Na prática, o critério que uma empresa deve usar para decidir o que automatizar é identificar aquilo que mais toma tempo e que, se fosse automatizado, geraria resultados imediatos. Ou seja, tarefas que, ao se tornarem instantâneas, permitiriam aumentar vendas, agilizar entregas ou melhorar a eficiência. Por exemplo, imagine uma empresa de cotação. Se automatizarmos o envio de e‑mails para fornecedores – cem, cinquenta fornecedores de uma só vez –, isso traria resultados imediatos. Teríamos mais tempo para analisar propostas, poderíamos aumentar a chance de ganhar a cotação, agilizar o processo, reduzir custos e até aumentar a quantidade de cotações realizadas. Consequentemente, venderíamos muito mais. Esse é um ponto essencial: quando uma empresa decide começar a usar IA, é um erro tentar começar com tudo ao mesmo tempo. Precisamos iniciar com um ou dois itens e ir acrescentando aos poucos. Assim, vamos nos habituando à IA, entendendo seu potencial e melhorando cada processo conforme avançamos, porque já sabemos o que ela pode fazer e como aplicá-la de forma mais estratégica.
Quando uma empresa decide implementar IA, o desafio raramente é técnico, é organizacional. O que você viu, na prática, que diferencia as empresas que realmente escalam IA daquelas que ficam presas em pilotos eternos?
Quando falamos sobre colocar IA na empresa, gostamos de usar uma analogia simples. Imagine que colocássemos o Bill Gates, o Warren Buffett, o Jorge Paulo Lemann, o Beto Sicupira e o Marcel Telles para “tomar conta” da empresa, mas apenas para executar tarefas operacionais, sem pensar estratégia, sem criar nada novo, apenas fazendo atividades repetitivas de forma mais rápida. O resultado seria péssimo. Essas pessoas não são valiosas porque executam tarefas em um minuto; elas são valiosas porque criam estratégia, otimizam processos, desenvolvem produtos, serviços e modelos de negócio que transformam empresas. O Bill Gates não teve sucesso porque fazia tarefas de uma hora em um minuto. Ele teve sucesso porque criou a melhor estratégia, o melhor produto, o melhor serviço e a melhor forma de escalar internacionalmente. É por isso que comparamos essas mentes brilhantes à IA: não pelo “braço”, mas pelo intelecto. Quando dizemos que vamos usar IA na empresa, não estamos falando apenas de fazer tarefas mais rápido. O ponto central é que a IA tem um intelecto gigantesco para produzir rapidamente aquilo que chamamos de trabalho braçal – o “corte de cana digital”. Mas o verdadeiro diferencial surge quando combinamos duas coisas. Pessoas inteligentes pensando em estratégia, produto, serviço e direção da empresa, e mão de obra digital extremamente rápida, que executa o trabalho operacional com precisão e escala. Quando essa cultura se estabelece – estratégia humana aliada à execução acelerada pela IA –, aí sim a empresa alcança resultados extraordinários.
Muitas empresas ainda estão presas ao uso básico de chatbots. Quais são os primeiros passos concretos para avançar para aplicações mais profundas de IA, especialmente em operações e backoffice?
Muitas empresas ainda estão presas ao básico, usando IA de forma amadora. O erro mais comum é tratar a IA apenas como uma extensão do braço humano. O programador, por exemplo, diz que vai usar a IA para programar, mas depois ele mesmo vai analisar se o código está bom. O advogado pede para a IA levantar precedentes, mas depois revisa tudo como se fosse mais competente do que ela para esse tipo de tarefa. O médico entrevista o paciente por uma hora e só então decide a melhor estratégia, ignorando que a IA poderia fazer toda a triagem inicial com muito mais precisão e velocidade. Essa postura parte de uma premissa equivocada: a de que somos mais inteligentes do que a IA para executar tarefas operacionais. Não somos. Ler dezenas ou centenas de páginas, cruzar informações, resumir, comparar, classificar e gerar alternativas é trabalho braçal digital, e a IA faz isso infinitamente melhor e mais rápido do que nós. O que precisamos é justamente o contrário: deixar que a IA execute cem por cento do trabalho operacional e assumir que ela já parte de um nível muito superior ao nosso nesse tipo de atividade. No jurídico, ela deve analisar os precedentes. Na medicina, deve fazer a triagem, levantar indicadores, organizar sintomas e entregar um resumo completo para que o médico tome uma decisão mais precisa. No atendimento, ela não deve apenas perguntar nome, endereço e telefone, pois isso é chatbot básico. Ela deve analisar exames, monitorar o paciente, identificar padrões e entregar ao humano um diagnóstico inicial muito mais rico. O mesmo acontece no marketing digital. Muitas empresas dizem que vão lançar um produto e usar a IA apenas para gerar imagens e textos, deixando a estratégia para depois. Isso é amador. O caminho certo é estudar a estratégia com a IA, definir posicionamento, funil, oferta e público, e só então pedir para ela executar tudo: anúncios, cópias, textos e segmentações. A IA executa melhor do que qualquer humano, mas ela não cria estratégia. Esse é o nosso papel. A diferença entre empresas amadoras e profissionais no uso de IA é simples: as amadoras usam IA apenas para fazer tarefas mais rápido, enquanto as profissionais usam IA para pensar junto, estruturar a estratégia e executar tudo com escala e precisão.
Quais habilidades práticas, técnicas e não técnicas, uma equipe precisa dominar para transformar IA em rotina operacional, e não apenas em experimentos pontuais?
Para trabalhar com IA dentro de uma empresa, precisamos de uma pessoa curiosa. Falamos curiosa porque não funciona colocar apenas programadores tradicionais, aquela TI à moda antiga que muitas empresas ainda usam, para fazer a IA funcionar. O perfil ideal é alguém entusiasta de tecnologia, que acompanha o que está sendo usado agora no universo da IA e que esteja disposto a aprender. E o mais interessante é que essa pessoa leva pouquíssimo tempo para se capacitar. Estamos falando de um a três meses para aprender o essencial. No fundo, o que essa pessoa precisa dominar não é programação, mas sim os processos que serão automatizados. Ela precisa entender a rotina médica para automatizar um processo médico, a rotina industrial para automatizar uma operação industrial, a rotina de TI para automatizar programação, e assim por diante. Quanto mais ela conhece a rotina, o trabalho real, a forma de encantar o cliente e os pontos onde é possível ganhar velocidade, mais fácil se torna programar e automatizar. Hoje existem diversas ferramentas que substituem grande parte do trabalho de uma software house tradicional. Por isso, o diferencial não está mais em saber programar profundamente, mas em entender profundamente o processo que será automatizado. Quando dominamos o processo, a tecnologia se torna apenas o meio e não o fim.
Como as empresas podem organizar seus dados, mesmo sem grandes investimentos, para que modelos de IA entreguem resultados confiáveis e reduzam riscos com alucinações? E como podem estruturar governança e limites éticos para evitar decisões automatizadas inadequadas?
Em 2026, podemos afirmar com absoluta certeza que existem softwares que realizam as funções permitidas, e nós utilizamos ferramentas de IA para programar soluções em diversas áreas, como segurança, banco de dados, interface e muito mais. Dito isso, nossos programadores são, atualmente, todos os funcionários digitais. Temos equipes que pensam em produto, usabilidade e experiência do usuário, e colocamos pessoas dedicadas para nos comunicarmos com nossos clientes. Quando as empresas desejam ter acesso e controle sobre seus dados, elas basicamente utilizam diversas ferramentas de IA disponíveis no mercado para criar bancos de dados, telas e sistemas de ponta a ponta, sempre incorporando inteligência artificial nesse processo. Entretanto, estamos contra a utilização de ferramentas como o ChatGPT para organizar, por exemplo, a vida de uma imobiliária dentro de um chat de reprodução. Isso pode ser problemático porque o modelo pode gerar informações incorretas, não armazena dados permanentemente e é suscetível a questões de segurança, como o compartilhamento indevido de informações. Por outro lado, encorajamos profundamente o uso da OpenAI, que está por trás do GPT, para criar um sistema mais robusto. Podemos desenvolver nosso próprio repositório de arquivos e nosso próprio IA para atender, por exemplo, via WhatsApp. Essa abordagem é, sem dúvida, o futuro.
Você trabalha com a ideia de tirar a IA do discurso e colocá‑la na operação. Quais indicadores ou métricas você recomenda para medir se a IA realmente está gerando impacto no negócio?
Como sabemos, mesmo sem IA, se uma coisa está dando certo? Normalmente perguntamos para o cliente ou para quem não se tornou cliente o porquê de não ter contratado nosso produto. Isso seria para os leads, certo? Gostamos de fazer essa entrevista. Dizemos: “Se você não se importar, poderia me dizer por que não contratou nosso produto ou nosso serviço?” A mesma pergunta pode ser feita para entender por que ele contratou nosso produto ou serviço. Essa questão é um indicador que nos ajudará a melhorar nossos produtos e serviços.Obviamente, acoplamos inteligência artificial para redução de tempo, custos e humanização, para atender mais rápido e tudo mais. É importante perguntar ao cliente. Um exemplo que temos é de uma clínica médica que é nosso cliente. Se, por exemplo, um paciente no pós-cirúrgico disser: “Estou sentindo essa dor assim, assado”, e receber uma resposta pronta, isso representa uma dor real que uma pessoa está sentindo. Nós remetemos o encaminhamento para o médico de forma rápida, para que ele possa ler um exame com agilidade. Se perguntarmos a esse paciente por que ele prefere esse médico e por que ele o indica, ele responderá que é por causa do atendimento. O atendimento é instantâneo, ele enviou seu exame e já teve o resultado.Agora imagine isso aplicado em todas as empresas e áreas. Vamos entender que o tempo de atendimento foi extraordinário. Para fazer uma brincadeira aqui, imagine se você quisesse cancelar um serviço. Se conseguíssemos fazer isso de forma mais rápida – estou falando, por exemplo, de telefonia e outros serviços que costumam demorar muito para cancelar. Eles são ágeis na contratação, mas péssimos sem cancelamento. Sabemos que, propositalmente, fazemos isso. Mas a partir do momento que perdemos o medo de realizar esse cancelamento, por exemplo, nas empresas bilionárias, conseguimos cancelar algo rapidamente, e isso é o que as torna bilionárias.Um exemplo que podemos citar é um serviço de streaming. Se você cancelar a Netflix, por exemplo, faz isso em alguns cliques e acabou. Por isso, depois você voltará a concordar com a Netflix sem problema algum. Você entende a diferença? Isso é modernidade e não muda. O trabalho humano continua, mas agora é feito de uma maneira mais eficiente.
Para empresas imobiliárias, público central da ABMI, quais são os casos de uso de IA mais subestimados hoje e que poderiam gerar resultados imediatos?
Quando falamos de IA, falamos tanto da porta para dentro quanto da porta para fora. Da porta para dentro, é inconcebível ter uma minuta de contrato que leve mais de um minuto para ficar pronta. Isso é um absurdo. Minutas de contrato precisam ser extremamente rápidas. Análise de crédito? Crédito em um minuto. Imaginem um aluguel, ou até a compra de um imóvel, sendo concluído 100% pelo WhatsApp. Esse é o futuro. E quem implementar isso será automaticamente indicado por todos. Por isso dizemos que as imobiliárias, de forma geral, não vão falir por causa da IA. Elas vão falir porque outra imobiliária concorrente vai usar IA. E o ser humano é assim: ele busca modernidade, conforto e segurança. E não existe nada mais seguro do que uma inteligência artificial imparcial. Com IA, conseguimos consultar crédito, cotar em todos os bancos, fazer todos os cálculos possíveis. Se um cliente pede uma parcela específica, conseguimos calcular rapidamente. Se ele quer fazer uma reforma, conseguimos gerar a cotação em instantes. Conseguimos mostrar visualmente como o imóvel vai ficar – o cômodo, as mobílias, o papel de parede, as cores –, tudo em segundos. Aquele processo antigo de “vou pedir para um arquiteto de confiança fazer um projeto” simplesmente não acompanha o ritmo atual. Hoje, o ser humano quer o instantâneo. E o instantâneo só é possível com IA, porque é humanamente impossível entregar essa velocidade. Repetimos sempre: tudo aquilo que é impossível para o ser humano, é possível para a IA.